A reeleição de Tarcísio de Freitas (Republicanos) ao governo de São Paulo no primeiro turno, com quase 63% dos votos, não foi apenas uma vitória local. O resultado, que superou uma frente de ex-ministros escalada por Lula, incluindo Fernando Haddad, Márcio França, Simone Tebet e Marina Silva, cravou a maior votação de um primeiro turno na história do estado, com 14,5 milhões de votos em 99% dos municípios. Este triunfo eleitoral projeta Tarcísio de Freitas como uma peça central e incontornável no complexo xadrez eleitoral para a disputa presidencial de 2030.
A expressividade dos números não apenas ampliou a envergadura política do governador, mas também reforçou a percepção sobre seu potencial para um voo nacional. O cenário de 2030, embora distante, já começa a ser desenhado com Tarcísio no centro das especulações, redefinindo alianças e estratégias no espectro da direita brasileira.
A Força Eleitoral e a Projeção Nacional de Tarcísio
A vitória de Tarcísio de Freitas em São Paulo foi um marco. Além de conquistar o governo no primeiro turno, sua coligação de dez partidos garantiu a eleição dos senadores Guilherme Derrite e André do Prado, superando nomes de peso como Simone Tebet e Marina Silva. A base aliada também obteve a maioria das cadeiras na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa, consolidando um forte grupo político em torno do governador.
Esse desempenho robusto não passou despercebido nos meios empresariais e no mercado financeiro, onde o nome de Tarcísio já circulava como uma alternativa viável para enfrentar Lula em 2026. No entanto, ele acabou preterido pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, que foi o mentor político de Tarcísio. A decisão de disputar a reeleição em São Paulo, contudo, não será uma opção em quatro anos, intensificando as especulações sobre sua candidatura ao Palácio do Planalto em 2030, mesmo com a presença de um fortalecido Flávio Bolsonaro no caminho.
Entre o Bolsonarismo e a Terceira Via
O futuro político de Tarcísio de Freitas apresenta dois horizontes distintos. Caso Flávio Bolsonaro não vença a eleição presidencial, Tarcísio ganha força como o principal nome da direita para 2030, embora o peso do sobrenome Bolsonaro ainda possa influenciar o cenário. Se Flávio Bolsonaro for vitorioso, a ascensão de Tarcísio torna-se mais complexa, pois a alta popularidade do senador naturalmente o colocaria à frente na fila, apesar de Flávio ter defendido o fim da reeleição.
Ainda assim, há um risco inerente à tentativa de Tarcísio de traçar um caminho sem a tutela bolsonarista. A história política recente mostra exemplos de figuras que tentaram se desvincular do clã Bolsonaro e acabaram perdendo o apoio do eleitorado de direita. Apesar disso, a vitória expressiva em São Paulo pode ser o embrião de um grupo político próprio, com deputados e senadores aliados cerrando fileiras com o governador em projetos futuros. No entanto, aliados preferem a cautela, como a deputada federal reeleita Rosana Valle (PL-SP), que afirma não fazer sentido antecipar uma disputa tão distante.
O Perfil de Gestor e o Legado Tucano
Uma tese que ganha força é a de que o tempo definirá se Tarcísio e os Bolsonaro compartilharão um projeto político único. Até o momento, o governador tem navegado entre um discurso técnico, que atrai o eleitor de centro, e um apoio calculado às pautas mais radicais do PL, como o impeachment de ministros do Supremo e a anistia a condenados por tentativa de golpe. Esse endosso, por vezes, é considerado modesto demais pelo clã Bolsonaro.
Se almejar um voo presidencial, Tarcísio terá de escolher entre abraçar a agenda bolsonarista ou consolidar-se como uma terceira via. O cientista político Rubens Figueiredo, diretor do Centro de Pesquisa e Comunicação (Cepac), observa que Tarcísio deve sua popularidade aos Bolsonaro, mas agora projeta-se como líder de direita sem o mesmo radicalismo ideológico, evidenciando uma diferença entre lealdade e fidelidade canina.
No ambiente econômico, Tarcísio é visto como um integrante da direita disposto a dialogar e sem propostas extremistas, o que o aproximou do empresariado paulista. Ele é considerado um “novo tucano”, capaz de substituir o PSDB liberal no estado. Ao derrotar o PSDB, que governou São Paulo por três décadas, Tarcísio herdou grande parte de seu eleitorado, atraído por sua agenda e estilo político. Uma preocupação constante do governador é se apresentar como “técnico”, focado na eficiência do Estado.
As privatizações foram um pilar de sua gestão, consolidando sua popularidade junto ao setor privado. A privatização da Sabesp, a expansão de concessões em linhas metropolitanas de trem e a terceirização administrativa em escolas são medidas que há muito compõem a agenda liberal, aproximando seu perfil das gestões tucanas. Juan Carlos Arruda, cientista político e diretor-geral do Ranking dos Políticos, avalia que Tarcísio conseguiu incorporar essas pautas e convencer as hostes bolsonaristas com um discurso mais técnico, fidelizando o eleitor “viúvo” dos tucanos.
Segurança Pública e Intervenções Urbanas
Além da agenda econômica, Tarcísio de Freitas também priorizou a segurança pública, indo além de uma abordagem meramente punitivista. Embora tenha feito uso da força, o que gerou críticas, seu trabalho focou em intervenções para recuperar espaços de proliferação de criminosos, especialmente no centro degradado de São Paulo. A intenção de levar a sede do governo para essa região demonstra seu compromisso com a revitalização.
Entre os sucessos exibidos, destacam-se a demolição da Favela do Moinho e o desmonte da Cracolândia, um polo de uso de drogas a céu aberto. Essas ações desarticularam uma teia criminosa que sustentava atividades ilegais no coração da capital paulista, resistindo a intervenções estatais por três décadas. Essas iniciativas reforçam a imagem de Tarcísio como um gestor eficaz e determinado.
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Fonte: veja.abril.com.br