A Comissão Nacional de Política Agrícola da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) reuniu especialistas e lideranças em Brasília para discutir os desafios urgentes que ameaçam o setor. Em pauta, a implementação do Marco Legal do Seguro Rural, as medidas para mitigação do endividamento dos produtores e os potenciais estragos climáticos decorrentes do fenômeno El Niño nas próximas safras.
Durante a abertura dos trabalhos, o presidente da comissão, José Mário Schreiner, destacou que a proteção securitária é um pilar insubstituível para a estabilidade da atividade agropecuária. Ele cobrou a consolidação das normas previstas na nova legislação para garantir suporte efetivo aos produtores do campo.
Queda expressiva na cobertura do seguro rural acende alerta no setor
A desidratação das apólices agrícolas no país foi um dos pontos mais críticos apresentados durante a reunião. Dados da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) revelam um encolhimento drástico no volume protegido: o valor total segurado despencou de R$ 50,5 bilhões, em 2024, para R$ 17,6 bilhões, em 2025. A variação negativa representa uma retração de 65% no montante financeiro resguardado.
O impacto direto desse recuo refletiu-se no número de agricultores atendidos. No mesmo intervalo comparativo, a quantidade de produtores beneficiados caiu de 85,5 mil para 41,7 mil, o que equivale a uma redução de 51% na cobertura das propriedades.
Para contornar o cenário, Júlio Alexandre Menezes apresentou as diretrizes do marco legal, enfatizando a urgência de diversificar os produtos disponíveis e adequar os contratos aos diferentes perfis de cultivo. Entre os mecanismos estratégicos em debate estão:
- Garantia de previsibilidade orçamentária para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR);
- Estruturação de bancos de dados consolidados para cálculo de risco;
- Operacionalização do Fundo Catástrofe para cobertura suplementar.
Medida provisória e renegociação de dívidas no campo
Paralelamente às incertezas climáticas, o endividamento rural dominou as discussões com a análise da Medida Provisória 1376/2026. Representantes de diferentes regiões manifestaram apreensão com as condições de financiamento para o ciclo produtivo iminente, citando dificuldades enfrentadas por produtores em Mato Grosso para viabilizar o início do plantio.
O panorama de crédito foi detalhado por Dyego Santos, gerente executivo de Soluções Agro da Serasa Experian. Ele apontou que, embora os pedidos de recuperação judicial tenham registrado queda de 20% no comparativo trimestral, os índices gerais de inadimplência vêm acumulando altas consecutivas nos últimos anos.
Ameaça do El Niño e prejuízo bilionário na produção de soja
As projeções trazidas pela Serasa Experian sobre a safra de soja 2026/2027 trouxeram números preocupantes caso se confirme um quadro de super El Niño. Em uma área de cultivo estimada em 49,9 milhões de hectares, a colheita pode ficar limitada a 163,6 milhões de toneladas, contra 181,2 milhões de toneladas esperadas em condições de neutralidade climática.
Essa diferença de 17,6 milhões de toneladas representa uma queda de 9,7% na colheita da commodity. Em termos financeiros, a perda potencial é avaliada em R$ 33 bilhões no Valor Bruto da Produção (VBP) da soja, tendo como base a cotação praticada em agosto de 2026.
As perdas na cultura da soja tendem a ser mais severas no Centro-Oeste, afetando prioritariamente lavouras localizadas em Mato Grosso e Goiás. Por outro lado, o Rio Grande do Sul pode registrar incrementos na produtividade em decorrência das alterações no regime de chuvas.
Reflexos na inflação dos alimentos e no PIB da agropecuária
Os desdobramentos de eventuais frustrações de safra ultrapassam as fronteiras das fazendas e tendem a pressionar a economia nacional. As estimativas indicam que a quebra na produção pode provocar uma alta entre 3,6 e 9,6 pontos percentuais na inflação dos alimentos consumidos no domicílio.
Além disso, os cálculos projetam um impacto negativo de 0,7% no Produto Interno Bruto (PIB) do setor agropecuário no ano de 2027. A combinação entre retração securitária, custos de crédito elevados e volatilidade do clima desenha um cenário desafiador para a cadeia produtiva nos próximos anos.
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Fonte: canalrural.com.br