Com uma janela de apenas 30 dias para negociações bilaterais, o governo federal busca uma saída diplomática para evitar a imposição de tarifas de 25% pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. O cenário econômico, que preocupa o setor empresarial, é acompanhado por uma intensa disputa política interna, onde tanto o governo Lula quanto a oposição buscam capitalizar o desfecho do caso junto ao eleitorado de centro.
A corrida contra o tempo
A urgência do cenário é definida por um prazo curto de manobra. Segundo Fabrizio Panzini, diretor de políticas públicas da Amcham Brasil, a mensagem principal do empresariado é clara: é preciso aproveitar esse intervalo para evitar danos severos à balança comercial.
“Tem uma janela de prazo aí de 30 dias para que os governos se entendam e tenham uma saída mais favorável do que de fato a aplicação de 25%. A primeira mensagem que o setor empresarial gostaria de passar é que haja um bom aproveitamento dessa janela.”
O histórico recente mostra o peso das medidas tarifárias. No ano passado, produtos que sofreram taxação amargaram uma queda de exportações superior a 20%, um recuo três vezes maior do que a média geral de queda das vendas externas brasileiras.
“A queda das exportações gerais foi da ordem de 6% no ano passado, e se a gente olhar só os produtos com tarifas nas mais altas, 40% a 50%, a queda foi superior a 20%.”, completa Panzini. Os bastidores em Washington
A nova investida comercial dos Estados Unidos não é fruto apenas da vontade de Donald Trump. Nos bastidores de Washington, o diplomata Mario Vilalva, que foi embaixador do Brasil em Portugal e na Alemanha, aponta o conselheiro Peter Navarro como o grande arquiteto da ofensiva. Navarro, que já influenciou o presidente americano no primeiro mandato, defende a aplicação de tarifas sob a premissa de desequilíbrios comerciais.
“É uma pessoa que influencia bastante o presidente Donald Trump e essa pessoa é o Peter Navarro.O Trump gosta pessoalmente dele e gosta da narrativa que o Peter Navarro imprimiu desde o primeiro mandato em relação à necessidade de colocar tarifas.”, explicou Vilalva.
Para blindar juridicamente o processo e evitar que a Suprema Corte americana derrube a medida, como ocorreu com pacotes tarifários anteriores, a estratégia é utilizar a “Seção 301” da lei de comércio norte-americana.
Curiosamente, o processo de convencimento de Trump envolveu uma surpresa: ao ser questionado sobre o superávit brasileiro, o presidente dos EUA demonstrou desconhecimento sobre a realidade dos números do comércio bilateral com o Brasil.
“Ele se mostrou surpreso quando o presidente Lula disse: ‘Mas nós não temos superávit comercial com os Estados Unidos’. Aí o presidente Trump olhou para os lados: ‘Mas eu não sabia que vocês não tinham’.”, relembra o embaixador.
O tabuleiro político interno
Enquanto a diplomacia tenta reverter o quadro econômico, o tema tornou-se munição para a disputa política interna. O envio de uma carta do senador Flávio Bolsonaro ao secretário Marco Rubio acrescentou uma camada de complexidade ao caso. “Se o Trump, eventualmente depois dessa carta do Flávio, não impuser essas tarifas, o Flávio pode capitalizar na margem melhor do que o presidente Lula”. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) declarou, nesta terça-feira, que os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) conseguem ser “piores que ele”, referindo-se ao pai, ao comentar sobre a conclusão da investigação dos Estados Unidos que propõe uma taxa de 25% a produtos brasileiros.
Noronha avalia essa estratégia de utilizar o episódio para reforçar o discurso de soberania nacional, acusando a oposição de trabalhar contra os interesses do país.
“Ajuda ao presidente Lula no discurso de defesa da soberania dizendo que o Flávio está usando o prestígio dele para articular para que os Estados Unidos imponha sanções ao país”, pondera o cientista político.
A disputa de narrativas é clara: enquanto lulistas e bolsonaristas possuem bases consolidadas, o fiel da balança permanece sendo o eleitor que transita entre os dois polos, e é exatamente a forma como esse grupo irá interpretar o desenrolar das tarifas que ditará o impacto político do episódio.
“A forma como o eleitor de centro interpreta esse cenário e em qual narrativa decidirá acreditar — se na do governo ou na da oposição — será determinante. Essa é uma questão que exercerá um impacto muito mais profundo sobre o eleitorado de centro, justamente o terreno onde os dois candidatos concentram suas disputas”, conclui.
Fonte: manual-1780507130356