A Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados deu um passo significativo em direção a um futuro mais sustentável para o campo brasileiro. Foi aprovado o Projeto de Lei 6011/25, que propõe a criação da Política Nacional de Estímulo à Implantação de Sistemas Agroflorestais (PNA-SAF). Essa iniciativa representa um marco importante para integrar a produção agropecuária com a preservação florestal, visando não apenas a recuperação de áreas degradadas, mas também o aumento da renda para as comunidades rurais.
Os sistemas agroflorestais (SAFs) são modelos de uso da terra que combinam árvores, arbustos e culturas agrícolas ou pecuária em uma mesma área, de forma planejada e sustentável. Essa abordagem multifuncional busca otimizar a produção, conservar o solo, proteger a biodiversidade e mitigar as mudanças climáticas. No Brasil, embora já sejam uma prática comum em biomas como a Amazônia, Mata Atlântica e Cerrado, a falta de um arcabouço legal unificado dificultava a expansão e o reconhecimento dessas iniciativas.
Um novo marco legal para os sistemas agroflorestais
A aprovação do PL 6011/25 na comissão representa a formalização de um conjunto de ações públicas dedicadas aos sistemas agroflorestais. Conforme destacou o relator, deputado Roberto Duarte (Republicanos-AC), a proposta visa dar segurança jurídica e estruturar políticas que hoje se encontram dispersas, oferecendo um alicerce sólido para o desenvolvimento do setor. Essa organização é crucial para que os SAFs possam ser implementados em larga escala, com o apoio necessário do Estado e da iniciativa privada.
A relevância dessa política se estende para além do aspecto ambiental. Ao promover a recuperação de áreas degradadas, ela contribui diretamente para a resiliência dos ecossistemas e para a adaptação às mudanças climáticas. Além disso, a diversificação da produção e a valorização de produtos sustentáveis podem gerar novas fontes de renda e fortalecer a economia local, especialmente para agricultores familiares e comunidades tradicionais.
Incentivos e ferramentas para a produção sustentável
Para impulsionar a adoção dos sistemas agroflorestais, o projeto de lei prevê uma série de instrumentos estratégicos. Entre eles, destacam-se as linhas de crédito específicas, desenhadas para atender às particularidades desses modelos produtivos. Com taxas de juros reduzidas e prazos de pagamento estendidos, esses financiamentos buscam tornar os SAFs mais acessíveis e atrativos para os produtores rurais, superando barreiras financeiras que muitas vezes impedem a transição para práticas mais sustentáveis.
Outra inovação é a criação do Selo Agroflor Brasil, uma certificação que visa valorizar comercialmente os produtos originários de sistemas agroflorestais. Esse selo pode abrir portas para mercados consumidores mais exigentes e dispostos a pagar mais por produtos sustentáveis, agregando valor e reconhecimento ao esforço dos produtores. Complementarmente, o Cadastro Nacional de Sistemas Agroflorestais (CNSA) será uma ferramenta essencial para coletar dados sobre as áreas atendidas, as famílias beneficiadas e, crucialmente, a quantidade de carbono capturada por esses sistemas, permitindo um monitoramento eficaz e a quantificação dos benefícios ambientais.
Benefícios sociais e capacitação no campo
A PNA-SAF também se preocupa em garantir que os benefícios da sustentabilidade cheguem às populações mais vulneráveis. O texto aprovado inclui mecanismos para que agricultores familiares e comunidades tradicionais possam gerar receita com a preservação ambiental, por meio do mercado de carbono e de pagamentos por serviços ambientais. Essa articulação com programas federais de mesma finalidade pode representar uma fonte de renda adicional e um incentivo direto à conservação.
Assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e reservas extrativistas terão prioridade no acesso aos benefícios e financiamentos previstos pela política, reforçando o compromisso com a inclusão social e o desenvolvimento equitativo. Além disso, a proposta reconhece a importância da capacitação, prevendo programas de formação em sistemas agroflorestais para técnicos de assistência técnica e extensão rural. Essa medida é fundamental para que o conhecimento sobre implantação e manejo dos SAFs seja disseminado de forma eficaz entre os produtores.
Próximos passos e o caminho até a sanção
O Projeto de Lei, de autoria do deputado Carlos Henrique Gaguim (União-TO), foi aprovado com emendas de redação propostas pelo relator Roberto Duarte, que buscam alinhar a proposta ao Código Florestal e às leis climáticas brasileiras. Apesar do avanço significativo na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural, a tramitação do PL 6011/25 ainda segue em caráter conclusivo por outras importantes comissões da Câmara: Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável; Finanças e Tributação; e Constituição e Justiça e de Cidadania.
Para que a PNA-SAF se torne lei e possa efetivamente transformar a realidade do campo, o texto ainda precisará ser aprovado pelo plenário da Câmara dos Deputados e, posteriormente, pelo Senado Federal. Esse processo legislativo, embora complexo, é essencial para garantir a robustez e a legitimidade da política. A expectativa é que a proposta continue a avançar, consolidando o Brasil como um líder em práticas agrícolas sustentáveis e inovadoras.
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Fonte: canalrural.com.br