Reprodução / Agenciainfra
O debate sobre infraestrutura no Brasil, muitas vezes, se resume à ideia de que investir é sinônimo de progresso. A cada ano, anúncios de novas obras, programas de manutenção e concessões geram uma sensação de avanço. Contudo, uma questão fundamental raramente é abordada com a seriedade necessária: estamos realmente preservando o patrimônio infraestrutural existente ou o estamos consumindo de forma imperceptível?
Essa é a preocupação central levantada por Francisco Gildemir Ferreira da Silva, professor e coordenador do Nefat, que aponta para uma perda silenciosa de valor. A infraestrutura não desaparece de um dia para o outro, mas sua capacidade de serviço pode se deteriorar gradualmente. Uma rodovia, por exemplo, pode manter seus quilômetros nos registros oficiais, mas oferecer um serviço cada vez mais deficiente, impondo custos e riscos crescentes à sociedade.
Patrimônio Físico e Funcional: Uma Distinção Crucial
Para compreender a dimensão do problema, é essencial diferenciar o patrimônio físico do patrimônio funcional. O patrimônio físico refere-se ao estoque bruto de ativos: os quilômetros de rodovias, o número de pontes e viadutos. Esse estoque, no entanto, não possui um valor constante. Um quilômetro de rodovia em excelentes condições e outro em estado de deterioração estrutural são fisicamente iguais, mas economicamente distintos.
Já o patrimônio funcional deve ser entendido como o estoque físico multiplicado pela condição e pelo desempenho desses ativos. É uma métrica que reflete a capacidade real de funcionamento e entrega de valor da infraestrutura. Quando se adota essa perspectiva, percebe-se que muitos dos indicadores atualmente utilizados no Brasil são insuficientes. Eles contabilizam a extensão da malha ou o volume de obras, mas falham em medir a capacidade de atendimento e o valor que essas estruturas continuam a gerar ao longo do tempo.
O Desafio da Capacidade Utilizada e o Crescimento Econômico
Um ponto adicional que raramente integra a discussão é a capacidade utilizada da infraestrutura. O sistema de transportes não opera isoladamente; ele está inserido em uma economia dinâmica, que cresce e se transforma. Se a demanda por infraestrutura avança em um ritmo superior à sua expansão, mesmo com novos investimentos, pode ocorrer um congestionamento generalizado.
Nesse cenário, o nível de serviço decai, os tempos de viagem aumentam, os custos logísticos sobem e, consequentemente, o patrimônio funcional diminui. É uma realidade paradoxal: um estado ou país pode estar expandindo sua malha viária e, ao mesmo tempo, perdendo capacidade de atendimento porque o crescimento econômico não está alinhado com a evolução da infraestrutura.
Concessões e a Realidade Nacional da Deterioração
Este fenômeno não se restringe a regiões específicas, manifestando-se tanto em estados com pouca presença de concessões quanto naqueles com forte participação de operadores privados. Em locais como São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul, existem trechos concedidos que apresentam padrões elevados de desempenho. No entanto, o agregado estadual, ao considerar toda a malha, ainda revela uma perda de capacidade funcional.
Isso ocorre porque, embora as concessões aprimorem as seções que administram, o patrimônio infraestrutural é um todo interligado. O restante da malha, que muitas vezes não está sob gestão privada e sofre com a falta de manutenção adequada, impacta negativamente o resultado geral para a sociedade. Nos estados com menor presença de concessões, a situação é ainda mais crítica, com perdas significativas de patrimônio funcional por habitante, evidenciando uma tendência preocupante em todo o país.
A Urgência de Novas Métricas e Perspectivas de Gestão
O ponto central é que o Brasil ainda não incorporou métricas patrimoniais efetivas na gestão de sua infraestrutura. A avaliação das políticas públicas continua focada no volume de recursos aplicados, quando o foco deveria ser o quanto de patrimônio funcional foi preservado ou ampliado. O investimento bruto, por si só, não garante a melhoria da infraestrutura. O que realmente importa é o investimento líquido da depreciação, ou seja, a parcela que efetivamente aumenta a capacidade de atendimento da rede.
Além disso, é crucial entender se a infraestrutura está crescendo no mesmo ritmo da economia que ela precisa suportar. Caso contrário, mesmo com aportes financeiros, o nível de serviço pode estar em declínio. A pergunta fundamental que o país deveria fazer é: quanto patrimônio funcional foi adicionado após considerar a deterioração dos ativos existentes e o crescimento da demanda? Sem essa mudança de perspectiva, o Brasil continuará a celebrar gastos enquanto perde valor, comprometendo sua competitividade, produtividade, segurança e bem-estar social.
A deterioração da infraestrutura é um processo silencioso, mas suas consequências são profundas e impactantes. É imperativo que o Brasil reconheça e valorize esse patrimônio invisível que sustenta sua economia. A ação é urgente, antes que a lacuna entre o que se tem e o que se precisa se torne intransponível. Para mais análises aprofundadas sobre o cenário nacional e global, continue acompanhando o Inova Carajás, seu portal de informação relevante e contextualizada. Acesse aqui para mais informações sobre o setor de infraestrutura no Brasil.
Fonte: agenciainfra.com