O debate sobre a política energética brasileira ganhou novos contornos com a recente declaração do candidato à presidência Flávio Bolsonaro. Em uma transmissão nas redes sociais, o político manifestou a intenção de rediscutir o percentual da mistura obrigatória de etanol à gasolina, caso seja eleito. A fala, que comparou o aumento do biocombustível a uma “reduflação” – onde o consumidor pagaria o mesmo preço por menos “produto” no tanque –, provocou uma forte e imediata reação de importantes entidades do setor sucroenergético e de biocombustíveis do país.
A controvérsia reacende discussões fundamentais sobre o papel do etanol na matriz energética nacional, sua relevância econômica para o agronegócio e a indústria, e o compromisso do Brasil com a transição para uma economia de baixo carbono. A posição do candidato não apenas gerou repúdio por parte de quem representa a cadeia produtiva, mas também desencadeou uma série de manifestações políticas, evidenciando a complexidade e a sensibilidade do tema no cenário eleitoral e estratégico do país.
A controvérsia da “reduflação” e o repúdio do setor do etanol
A declaração de Flávio Bolsonaro, que classificou o aumento de 32% da mistura de etanol na gasolina como uma “reduflação”, sugerindo que o consumidor estaria sendo lesado ao pagar o mesmo por um combustível com menor proporção de fonte fóssil, foi prontamente rebatida. Em nota conjunta, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), a União Nacional do Etanol de Milho (Unem), a Bioenergia Brasil, a Federação dos Plantadores de Cana do Brasil (Feplana), a União Nordestina dos Produtores de Cana (Unida) e a Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana) expressaram seu veemente repúdio.
As entidades argumentaram que a afirmação “desinforma o consumidor e desqualifica uma política de Estado construída ao longo de cinco décadas”. Elas ressaltaram a trajetória da política de biocombustíveis no Brasil, que vai desde o Proálcool, nos anos 70, até iniciativas mais recentes como o RenovaBio e a Lei do Combustível do Futuro. O setor manifestou surpresa com a crítica, destacando que a Lei do Combustível do Futuro, que estabeleceu as diretrizes para a mistura, “passou pelo Senado Federal com a anuência do próprio senador [Flávio Bolsonaro]”.
O etanol como política de Estado e a viabilidade técnica da mistura
O setor sucroenergético enfatiza que a presença do etanol na gasolina é muito mais do que uma simples adição; é uma política de Estado com múltiplos benefícios. O etanol, produzido em mais de mil municípios brasileiros, é um combustível de elevada octanagem que oferece vantagens como melhor desempenho e economia na bomba para o consumidor. Além disso, a sua produção gera milhares de empregos e contribui significativamente para a soberania energética do país, reduzindo a dependência de combustíveis importados e garantindo a autossuficiência nos combustíveis do ciclo Otto, que abastecem os veículos leves.
A mistura vigente, conforme as entidades, foi implementada com rigor técnico e responsabilidade. O processo foi conduzido pelo Governo Federal, através do Ministério de Minas e Energia e do Conselho Nacional de Política Energética, em diálogo constante com o setor produtivo e a indústria automotiva. Estudos aprofundados foram realizados pelo Instituto Mauá de Tecnologia, que testou 16 modelos de automóveis e 13 motocicletas, representativos da frota de 1994 a 2024, em diferentes proporções de mistura (27%, 30% e 32%). A conclusão foi a de “plena viabilidade, sem prejuízo ao desempenho ou ao consumidor”, com acompanhamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e dos fabricantes.
A defesa da campanha de Flávio Bolsonaro e o plano para biocombustíveis
Diante da repercussão negativa, a campanha de Flávio Bolsonaro divulgou uma nota para esclarecer a posição do candidato, afirmando que ele é um “defensor do setor sucroenergético e dos biocombustíveis”. A campanha detalhou que o plano de governo propõe transformar o Brasil em uma potência global de biocombustíveis, fortalecendo e expandindo o programa RenovaBio para o exterior e aplicando a Lei do Combustível do Futuro, o que permitiria ao país vender créditos de carbono em escala mundial.
A nota da campanha também apresentou formas eficientes e permanentes de incentivar o setor, incluindo a redução de impostos incidentes sobre o etanol hidratado, a simplificação tributária e a oferta de crédito para inovação em biogás e hidrogênio verde. A equipe do candidato reiterou que a presença do etanol na mistura da gasolina deve ser tratada como uma política de Estado, valorizando a produção agrícola nacional, melhorando a qualidade do ar nas cidades e aumentando a segurança energética. A campanha, no entanto, criticou a transformação da política de biocombustíveis em “instrumento episódico para tentar conter a alta dos preços às vésperas de uma eleição, como ocorreu no governo Lula”, reforçando a relevância do setor para o desenvolvimento do país.
O contraponto do BNDES e a visão do governo atual sobre o setor do etanol
Em meio ao debate, o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, também se manifestou, defendendo as ações do governo Lula em relação aos biocombustíveis. Mercadante destacou que, desde o início da atual gestão, o BNDES aprovou mais de R$ 17 bilhões em investimentos para o setor, um valor quase quatro vezes superior aos R$ 4,4 bilhões registrados no governo anterior. Esses recursos estão sendo aplicados em 17 projetos que visam ampliar em mais de 5 bilhões de litros por ano a produção de etanol no país.
Além disso, o presidente do BNDES mencionou a aprovação de mais de R$ 1,7 bilhão para novas tecnologias, como motores híbridos flex e motores a etanol para máquinas agrícolas, com projetos envolvendo grandes montadoras como Volkswagen, Stellantis e Toyota. Esse esforço, segundo Mercadante, integra a política do governo Lula de fortalecer o agronegócio, a indústria e a inovação, ao mesmo tempo em que acelera a transição para uma economia de baixo carbono. Ele classificou a declaração de Flávio Bolsonaro como “mais do que equivocada” e reveladora de uma “visão ultrapassada sobre o futuro da energia”. Mercadante concluiu que o Brasil está avançando na transição energética, substituindo parte de um combustível fóssil por uma fonte renovável produzida internamente, o que significa menos dependência do petróleo, mais mercado para o produtor rural e maior segurança energética. Para mais informações sobre as políticas de biocombustíveis, consulte o Ministério de Minas e Energia.
Este embate político e setorial sublinha a importância estratégica do etanol para o Brasil, tanto do ponto de vista econômico quanto ambiental. A discussão sobre a mistura de biocombustíveis na gasolina não é apenas técnica ou econômica, mas também profundamente política, com implicações diretas para o consumidor, o produtor rural e o futuro energético do país. Acompanhe o Inova Carajás para se manter atualizado sobre este e outros temas relevantes que impactam a sua realidade, com análises aprofundadas e informação de qualidade.
Fonte: canalrural.com.br