Alstom projeta expansão histórica do transporte sobre trilhos no Brasil

Alstom projeta expansão histórica do transporte sobre trilhos no Brasil
Foto: Alstom

O Brasil se encontra em um momento de recuperação e potencial significativo para o transporte de passageiros sobre trilhos, com a Alstom, multinacional francesa líder no setor, vislumbrando um crescimento que transcende as fronteiras de São Paulo. A avaliação da companhia, que opera uma fábrica em Taubaté (SP), aponta para um cenário promissor que anima a indústria de metrôs e trens, embora exija vigilância constante diante da acirrada competição com fabricantes estrangeiros.

Em entrevista à Agência iNFRA, Suely Sola, diretora-geral da Alstom Brasil e de Sinalização & Infraestrutura da empresa na América Latina, destacou que, apesar da liderança paulista em novos empreendimentos nos últimos anos, outras capitais brasileiras demonstram crescente interesse em modernizar ou expandir seus sistemas ferroviários. A Alstom acompanha de perto projetos em desenvolvimento, como as previsões para os metrôs de Recife (PE) e Brasília (DF), além da necessidade de tratamento contra obsolescência nas linhas da Trensurb em Porto Alegre (RS), impactadas pelas recentes enchentes.

O Despertar do Transporte sobre Trilhos Nacional

Um dos catalisadores para o otimismo do mercado é o Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU), conduzido pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). O levantamento detalhou a situação do transporte em grandes Regiões Metropolitanas do Brasil, identificando 187 projetos de mobilidade urbana em 21 RMs. Desses, 90 são voltados para metrôs, trens, monotrilhos e VLTs (Veículos Leves sobre Trilhos), somando um investimento estimado em R$ 376,1 bilhões.

Para Suely Sola, o norte fornecido pelo BNDES é crucial para impulsionar novos negócios no setor. “Vejo de forma muito positiva, nunca tinha visto esse movimento no país antes”, afirmou a executiva. Bernard Peille, diretor-geral da Alstom para a América Latina, que conversou com a reportagem durante a Innotrans em Berlim, reforçou a percepção: “Vemos cada vez mais expansão de linhas e também ambição por parte dos governos para realmente trabalhar no transporte de massa.”

Embora a execução desses projetos dependa das decisões dos governos locais, a expectativa é que o estudo do BNDES sirva como um forte incentivo para a materialização de muitas dessas iniciativas, diversificando o mapa do transporte sobre trilhos no país.

Projetos em Destaque e a Expansão Regional

Fora de São Paulo, o projeto mais avançado é a aquisição de dez novos trens para o sistema metroviário de Salvador e Lauro de Freitas, na Bahia. A Alstom venceu a licitação, cujo resultado foi divulgado pela CTB (Companhia de Transportes do Estado da Bahia), após uma intensa disputa judicial com a chinesa CRRC, que evidenciou a crescente competição internacional no setor.

Além dos grandes centros, o interesse em modais mais leves também cresce. “E tem algumas cidades que estão prevendo de começar com o veículo leve sobre trilho. Então é um momento que está acontecendo muita coisa em várias cidades do Brasil”, pontuou Sola. Em São Paulo, os projetos incluem a expansão de rotas como a Linha 6-Laranja, cujo edital de fornecimento de metrôs foi arrematado pela Alstom, e o Trem Intercidades (TIC) Campinas, concedido em 2024 a um consórcio entre a CRRC e a brasileira Comporte.

Dados da ANPTrilhos (Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos) mostram que o primeiro semestre fechou com 174,2 quilômetros de expansão em obras, sendo 80,7 quilômetros no estado paulista. No total, 17 projetos estão em andamento, abrangendo metrôs, VLTs, monotrilhos e trens urbanos em estados como Bahia, Ceará, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Alagoas e Paraíba.

O Desafio da Concorrência e o Conteúdo Local

Apesar do cenário otimista, a indústria nacional de transporte sobre trilhos observa com atenção a crescente presença de fabricantes chineses no Brasil. Empresas sediadas no país têm buscado apoio governamental para equilibrar a concorrência, argumentando que competidores estrangeiros não enfrentam os mesmos custos de produção locais.

Nesse contexto, novas regras de conteúdo local têm sido implementadas. O BNDES, por exemplo, elevou o percentual mínimo de conteúdo nacional em projetos ferroviários, passando de 20% para 40% em agosto, com previsão de atingir 50% em dois anos. A Camex (Câmara de Comércio Exterior) também aprovou o aumento da alíquota do imposto de importação sobre trens de passageiros, de 20% para 30%, visando proteger a indústria doméstica.

“Quando você importa tudo, você prejudica empresas com base já instaladas no Brasil. O BNDES percebeu que fazer escalonamento que finalizava em no máximo 20% não era o suficiente”, explicou Sola. Contudo, a diretora da Alstom ressalta a importância de que essas regras sejam efetivamente refletidas nos editais públicos. “Não adianta ter as regras se de alguma maneira acaba não tendo explicitamente definido que o financiamento é pelo BNDES, pela Caixa Econômica, dentro do PAC [que cobra conteúdo local]”, completou.

O caso do metrô de Salvador ilustra bem essa discussão. Em um primeiro edital, a CRRC, com uma proposta de R$ 490 milhões, chegou a superar a Alstom (R$ 614 milhões). No entanto, a chinesa foi desclassificada por não apresentar credenciamento junto ao Finame, do BNDES, que exige conteúdo local. Após um imbróglio judicial e um novo edital, a Alstom venceu com uma proposta de R$ 632,7 milhões, enquanto a CRRC subiu sua oferta para R$ 636,75 milhões. A CRRC, que agora planeja produção local em Araraquara (SP), ainda gera dúvidas no setor sobre a real extensão da fabricação nacional versus a montagem de componentes importados.

A Fábrica de Taubaté e o Futuro da Produção

Com 70 anos de atuação no Brasil, a Alstom adaptou sua fábrica de Taubaté para atender às demandas do mercado. Originalmente inaugurada para produzir o VLT do Rio de Janeiro, projeto que completou uma década em junho e foi crucial para os Jogos Olímpicos, a planta foi reconfigurada para a fabricação de metrôs e trens diante da escassez de novos projetos de VLT no país.

Questionada sobre a possibilidade de a fábrica de Taubaté retomar a produção de VLTs, dada a recente retomada de interesse nesse modal, Suely Sola indicou que a decisão dependerá da estratégia global da companhia. Atualmente, além do contrato da Linha 6-Laranja, a Alstom também está envolvida na modernização do sistema de sinalização das linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda de São Paulo, implementando o primeiro sistema ETCS (European Train Control System) de nível 2 na América Latina.

O cenário para o transporte sobre trilhos no Brasil é de transformação, com a Alstom posicionada para desempenhar um papel central. Acompanhe o Inova Carajás para mais informações relevantes, atuais e contextualizadas sobre o desenvolvimento da infraestrutura e da mobilidade no Brasil e no mundo. Nosso compromisso é trazer a você uma apuração de qualidade, com profundidade e credibilidade, em um portal multitemático que se importa com o que realmente importa.

Fonte: agenciainfra.com

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