A sétima edição do Festival Buffalo’s Gourmet, em Parauapebas, reafirmou seu papel como um polo de conhecimento e celebração cultural, oferecendo ao público uma programação intensa e diversificada. O evento, já consolidado na região, dedicou um dia inteiro a discussões aprofundadas sobre a rica musicalidade amazônica e a crucial relação entre meio ambiente e gastronomia, culminando em um espetáculo musical que ressaltou a identidade local.
Os debates e apresentações destacaram não apenas a efervescência cultural da Amazônia, mas também a necessidade de valorizar e proteger seus recursos naturais, conectando tradição, inovação e responsabilidade ambiental em um diálogo contínuo com a realidade regional.
Vozes da Amazônia: Musicalidade e Resistência Cultural
As primeiras horas do dia foram marcadas por um envolvente bate-papo sobre a musicalidade na Amazônia, mediado pela jornalista Hanny Amoras e com a participação do mestre de carimbó Clodoaldo Souza e do músico Bruno Benitez. A conversa explorou os avanços, ainda que lentos, na divulgação da música amazônica dentro e fora do Brasil, evidenciando a resistência e insistência de artistas e entusiastas.
Benitez, que havia encantado o público na noite anterior, criticou a ausência de artistas amazônicos em grandes eventos nacionais, como o Rock in Rio, e a inadequação de iniciativas como o “Amazônia Live” durante a COP30. Ele ressaltou, contudo, a recente abertura de palcos para a cultura regional, um sinal de que a persistência começa a render frutos, combatendo a “síndrome do vira-lata” que por vezes obscurece a riqueza cultural local.
A discussão também revisitou a história da música paraense, desde a década de 1920, abordando as transformações dos antigos festivais e o risco de apagamento de importantes manifestações culturais. Clodoaldo Souza enfatizou a importância de transmitir a cultura para as novas gerações, contando histórias e deixando um legado que garanta a perpetuação da memória ancestral da Amazônia e do Pará.
Um exemplo vivo dessa transmissão é Rarranda Karan, estudante do ensino médio em Parauapebas, que migrou do Piauí em 2021 e se apaixonou pelo carimbó. Ela compartilhou como a escola e a comunidade a conectaram com a cultura local, incluindo a criação de uma horta em formato de mandala. Rarranda celebrou a preparação para as apresentações de carimbó no Dia da Consciência Negra, mostrando como a arte se integra à educação e à vida dos jovens.
Clodoaldo Souza expressou a relevância do Festival Buffalo’s Gourmet como um catalisador cultural, revelando que o evento serviu de inspiração para a criação do Dia e da Semana Municipal da Vivência do Carimbó. Benitez corroborou, descrevendo festivais como o Buffalo’s como “oásis” que agregam diversas culturas, da gastronomia ancestral à música globalizada, atraindo públicos variados e promovendo um intercâmbio valioso.
Sustentabilidade e o Valor do Capital Natural
A programação seguiu com o painel “Meio Ambiente e Gastronomia”, que trouxe o biólogo Cesar Sá, da Vale, e a professora Veruska Gomes, da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra). A sessão se transformou em uma verdadeira aula sobre a vital importância das abelhas para a vida no planeta e os ecossistemas, destacando iniciativas de pesquisa e conscientização.
Veruska Gomes detalhou o trabalho da Ufra com apicultura (criação de abelhas com ferrão) e meliponicultura (com abelhas nativas sem ferrão) no município, enfatizando a necessidade de conhecimento e respeito aos ecossistemas locais. Ela alertou sobre o crime ambiental de transportar abelhas entre regiões, o que pode introduzir doenças e prejudicar a reprodução das espécies nativas.
A Ufra, parceira do Festival Buffalo’s Gourmet, apresenta anualmente os resultados de suas pesquisas, incluindo a caracterização da produção de mel. O objetivo é identificar as flores que as abelhas buscam e os compostos bioativos presentes no mel, com o sonho de desenvolver produtos típicos da região de Carajás. A universidade também colabora com a Associação Filhas do Mel na região do Cedere, em Parauapebas, explorando a relação entre a produção de cacau e mel.
A professora também abordou os desafios enfrentados pelos apicultores, como a contaminação por pesticidas que destroem colônias inteiras, e a lenta conscientização pública sobre a importância das abelhas. Cesar Sá, da Vale, introduziu o conceito de “Capital Natural”, explicando como a mensuração dos serviços ecossistêmicos da natureza pode incentivar a preservação. Ao atribuir valor a esses serviços, é possível engajar comunidades e populações na defesa e proteção do meio ambiente, garantindo um futuro mais sustentável.
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Fonte: cksonline.com.br