Os eventos de 8 de janeiro de 2023, marcados pela invasão e depredação dos Três Poderes em Brasília, representaram um ponto de inflexão na política brasileira, expondo a face mais radical de um movimento que buscava manter um grupo específico no poder. Agora, com as eleições se aproximando, figuras que ganharam notoriedade nesse contexto, e que foram condenadas ou estão sob investigação do Supremo Tribunal Federal (STF) por envolvimento na trama golpista, buscam estratégias para não serem esquecidas. Impedidas de concorrer diretamente, muitas delas se movimentam para lançar familiares ou apoiar candidaturas alinhadas, numa clara tentativa de preservar a influência e manter acesa a chama de suas pautas em Brasília.
Este pleito se configura como um verdadeiro teste para a força do bolsonarismo e da direita radical. Pelo menos 22 nomes que se projetaram com as manifestações e outras ofensivas antidemocráticas almejam vagas em Assembleias Legislativas, na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. Suas plataformas frequentemente priorizam a anistia para os participantes dos atos de depredação, que são rotulados como “presos políticos”. Essa agenda ganha fôlego em meio a denúncias e críticas contra ministros do STF, que, envolvidos em escândalos como o do Banco Master, tornaram-se alvos preferenciais desse grupo. A cientista política Tathiana Chicarino, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, observa que essas candidaturas “refletem a radicalização no debate político”, um cenário que encontra eco na sociedade, onde, segundo pesquisa Datafolha, 48% dos brasileiros afirmam não confiar na Corte.
Estratégias de Permanência: Família e Candidaturas Indiretas
A criatividade para contornar os impedimentos legais tem sido uma marca dessas campanhas. Um exemplo notório é o de Rebeca Ramagem (PL-RJ), esposa do ex-diretor da Abin, Alexandre Ramagem. Condenado a dezesseis anos por conspirar contra a República e atualmente foragido nos Estados Unidos, Alexandre Ramagem não pode retornar ao Brasil. Rebeca, no entanto, segue em sua campanha para deputada federal, contando com o apoio explícito da família Bolsonaro. Em uma tática inusitada, ela faz “corpo a corpo” com eleitores à distância, utilizando um boneco de papelão de seu marido, levado às ruas por cabos eleitorais. “Se meu marido não pode retornar agora, eu posso, com apoio e indicação da família Bolsonaro”, afirma a ex-delegada, que aposta em um perdão presidencial, caso Flávio Bolsonaro (PL-RJ) seja eleito senador, para repatriar o pai de seus filhos em liberdade. A campanha de Rebeca recebeu um aporte significativo de 1,7 milhão de reais dos fundos eleitoral e partidário, demonstrando o investimento nessas candidaturas.
Outro caso emblemático é o de Rita Zambelli (PL-SP), mãe da ex-deputada federal Carla Zambelli. Carla, que fugiu para a Itália após ser condenada por invadir sistemas do Conselho Nacional de Justiça, tem usado sua forte presença nas redes sociais para apoiar a candidatura da mãe. Em vídeos com grande apelo emocional, a ex-parlamentar manifesta seu apoio, buscando transferir sua base de votos para Rita, que foi uma das parlamentares mais votadas em 2022. “Vou sair do bastidor para ser a voz dela aqui no Brasil. Encaro uma missão que era da Carla e passou para mim”, declara a aposentada, que, apesar da falta de experiência política direta, garante ter acompanhado de perto a trajetória da filha desde 2018, quando se mudou para Brasília com ela.
O Dilema da Justiça e a Repercussão Social
A complexidade jurídica em torno dos atos de 8 de Janeiro permite situações diversas. Há quem, mesmo sendo réu confesso por participação violenta, conseguiu um caminho para disputar as eleições. É o caso do empresário Marcos Soares Moreira, conhecido como “Marcos Muralha”, candidato a deputado estadual pelo Novo no Espírito Santo. Preso e denunciado por seu envolvimento nas manifestações em Brasília, Muralha aceitou um acordo de não persecução penal (ANPP) com a Procuradoria-Geral da República (PGR), cumprindo serviços comunitários e participando de um curso sobre democracia para encerrar o processo. Contudo, em sua campanha, ele não hesita em retomar o tom crítico contra o Judiciário, chamando ministros do Supremo de “tiranos da toga” e defendendo abertamente o impeachment de Alexandre de Moraes, inclusive com ataques pessoais. “Fui preso porque eu tenho um posicionamento político”, afirma Muralha, reforçando a narrativa de perseguição.
A advogada Carolina Siebra (Novo-CE), candidata a deputada federal e presidente da associação de familiares dos réus do 8 de Janeiro, ecoa a insatisfação com o STF: “O STF se acha o dono da verdade, porque os ministros não respondem a ninguém. Precisamos pensar em uma reforma”. A pauta da reforma do Judiciário e da anistia para os envolvidos nos atos de 8 de Janeiro é um ponto central para essas candidaturas, que, juntas, já somam 9 milhões de reais em recursos dos fundos eleitoral e partidário, indicando um apoio substancial das legendas que as abrigam.
O Futuro da Direita e o Veredito das Urnas
A movimentação dessas figuras e de seus familiares revela a persistência de um grupo em manter sua relevância política, mesmo diante de impedimentos legais e da condenação pública dos atos de 8 de Janeiro. A eleição se torna, assim, um campo de prova crucial para determinar se o “clã Bolsonaro” e seus aliados ainda possuem a força para ditar os rumos da direita brasileira. Barrados ou não pela Justiça, a turma extremista tenta, a todo custo, permanecer no jogo político. A decisão final, sobre se ainda haverá espaço para a família do 8 de Janeiro e suas pautas, caberá exclusivamente ao eleitor nas urnas, definindo os próximos capítulos da polarizada política nacional.
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Fonte: veja.abril.com.br