A região amazônica, uma artéria vital para a economia e a cadeia de suprimentos do Brasil, enfrenta uma crise iminente. Com o pico do período de seca se aproximando, a ausência de dragagens adequadas e em tempo hábil em trechos estratégicos dos rios ameaça impactar severamente a navegação, especialmente no estado do Amazonas. Entidades e empresas já se preparam para um cenário de restrições significativas, rememorando os desafios enfrentados em anos anteriores.
Essa situação crítica exerce uma pressão imensa sobre a rede logística que abastece a Zona Franca de Manaus e escoa sua produção, ressaltando a urgência de ações governamentais para evitar desabastecimentos generalizados e interrupções econômicas. Associações e operadores portuários expressaram preocupação com a percepção de falta de proatividade das autoridades em mitigar os impactos de um período de estiagem que se intensificará entre outubro e novembro.
O cenário de baixa nos rios amazônicos
O Rio Amazonas, navegável por grandes navios conteineiros desde sua foz, na região de Belém (PA), experimenta uma drástica redução de vazão durante a estação seca. Esse fenômeno natural, muitas vezes agravado por padrões climáticos como o El Niño, leva a uma diminuição significativa da profundidade em áreas propensas ao acúmulo de sedimentos. Sem a dragagem apropriada, esses trechos rasos tornam-se intransitáveis para embarcações de maior calado, interrompendo o fluxo de mercadorias.
Mesmo antes de uma paralisação completa, os navios são forçados a navegar “aliviados”, transportando menos carga do que sua capacidade total. Esse ajuste operacional, embora permita algum movimento, inflaciona consideravelmente os custos de transporte para as empresas de navegação, gerando conflitos com os embarcadores de carga devido aos fretes mais caros. O efeito cascata econômico é imediato, impactando o custo final dos produtos e a competitividade das indústrias.
Estratégias de adaptação e o alerta de Itacoatiara
Em antecipação ao período crítico, entidades comerciais e terminais portuários em Manaus já estão implementando medidas emergenciais. Uma estratégia fundamental envolve operações de transbordo. Jhony Fidelis, diretor-executivo do Grupo Chibatão, um dos maiores complexos de terminais portuários privados de Manaus, detalhou planos para mobilizar uma estrutura de píer flutuante em Itacoatiara. Essa solução, empregada com sucesso em secas passadas, permite que contêineres sejam transferidos de navios maiores para balsas, que exigem menor profundidade para navegar em seções mais rasas como o Tabocal.
A região do Tabocal, próxima a Itacoatiara, é um gargalo notório. Projeções de agosto indicam uma profundidade de apenas sete metros em novembro, um nível considerado inseguro para navios de contêiner sem a dragagem adequada. Fidelis enfatizou que, embora o transbordo via balsas estenda os tempos de trânsito, é crucial para evitar a interrupção completa do abastecimento, uma lição aprendida dolorosamente durante a seca de 2023. Naquele ano, a ausência de um plano de emergência resultou em desabastecimento de alimentos, materiais de construção, medicamentos e itens de higiene pessoal na região.
Impacto no comércio e na Zona Franca de Manaus
O potencial colapso logístico reverbera por toda a economia amazônica. Bruno Loureiro, presidente da Associação Comercial do Amazonas (ACA), confirmou que muitas empresas já tomaram medidas preventivas, antecipando a compra de estoques. “O comércio amazonense acumulou muita experiência depois das estiagens dos últimos anos. […] Os lojistas da região conhecem essa realidade e sabem trabalhar preventivamente”, afirmou Loureiro, destacando a resiliência e a capacidade de adaptação do setor.
A Zona Franca de Manaus, um polo industrial crucial, depende fortemente do fluxo desimpedido de mercadorias. Matérias-primas e componentes, frequentemente importados, chegam via fluvial, e os produtos acabados necessitam de rotas eficientes para serem distribuídos pelo Brasil. Dada a limitada qualidade do acesso rodoviário de Manaus ao restante do país, a navegação fluvial é indispensável. Além do principal Rio Amazonas, outras vias aquáticas vitais, como o Madeira e o Tapajós, também enfrentam desafios semelhantes, afetando particularmente o transporte de granéis agrícolas.
Ações governamentais e os desafios da dragagem
O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) informou que as ordens de serviço para as dragagens em trechos críticos como Benjamin Constant-São Paulo de Olivença, Tabatinga-Benjamin Constant, Coari-Codajás e Manaus-Itacoatiara já foram emitidas. A previsão é que os trabalhos comecem na primeira quinzena de setembro, utilizando dragas de sucção e recalque, incluindo uma do tipo Hooper para o trecho Manaus-Itacoatiara. O órgão ressaltou que os levantamentos batimétricos estão sendo atualizados periodicamente para guiar as intervenções.
No entanto, a percepção de atraso persiste entre as entidades. Edeon Vaz Ferreira, diretor-executivo da Agência de Desenvolvimento Sustentável das Hidrovias e dos Corredores de Exportação (Adecon), observou em 13 de agosto que os trabalhos de dragagem em Manaus ainda não haviam começado. Ele destacou que a intervenção deveria ter sido iniciada em junho para equipamentos de menor vazão, dada a sua maior demora. A Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem (Abac) também alertou que os níveis dos rios estão caindo rapidamente e que as providências necessárias “não vêm sendo tomadas” a tempo, com gastos governamentais insuficientes e atrasados.
Um ponto de discórdia adicional é a situação no Rio Tapajós, onde as dragagens foram impedidas por divergências internas no Executivo sobre a necessidade de licenciamento ambiental. Apesar de um novo marco legal dispensar essa etapa para dragagens de manutenção, o consenso governamental ainda não foi alcançado, atrasando ações cruciais. O Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) e a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) afirmaram monitorar a situação e atuar em parceria, com a ANTAQ priorizando pedidos emergenciais para estruturas flutuantes.
A crise iminente na navegação do Amazonas é um lembrete contundente da complexidade dos desafios ambientais e logísticos que o Brasil enfrenta. Para acompanhar de perto os desdobramentos dessa situação vital para a economia e a população da região, e para se manter informado sobre outros temas relevantes que impactam o país, continue acessando o Inova Carajás. Nosso compromisso é trazer informação de qualidade, contextualizada e aprofundada, para que você esteja sempre à frente.
Fonte: agenciainfra.com