Um ato de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, realizado nesta terça-feira (13) próximo à Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), foi palco de graves ofensas à memória da vereadora carioca Marielle Franco. Assassinada em 2018 em um crime de motivação política que chocou o país, Marielle teve seu legado e sua história desrespeitados publicamente, gerando forte indignação e reações em diversas esferas da sociedade.
A manifestação ocorreu em um contexto de alta polarização política, um dia após a PUC-Rio emitir uma proibição de atividades político-partidárias em suas dependências até o fim do período eleitoral. O episódio reacende o debate sobre os limites da liberdade de expressão e a persistência da violência política no cenário nacional.
Contexto da manifestação e a proibição da PUC-Rio
A decisão da PUC-Rio de vetar manifestações político-partidárias em seu campus visava preservar o ambiente acadêmico de tensões eleitorais, buscando garantir um espaço neutro para a comunidade universitária. No entanto, o ato bolsonarista, embora externo aos portões da universidade, ocorreu em suas imediações, evidenciando a dificuldade de conter a efervescência política em períodos de eleição.
A presença de apoiadores do então presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) na região, com carros de som e discursos inflamados, transformou o local em um ponto de confronto ideológico. A proximidade com uma instituição de ensino superior, conhecida por seu engajamento em debates sociais e políticos, adicionou uma camada de complexidade ao incidente, levantando questões sobre o papel das universidades e a segurança de seus entornos em momentos de alta tensão.
A gravidade das ofensas e a reação no local
Em vídeos que rapidamente circularam pelas redes sociais, manifestantes bolsonaristas foram flagrados ironizando o assassinato de Marielle Franco. Um dos momentos mais chocantes foi a fala de um manifestante em um carro de som, que proferiu: “Marielle está com papai do céu”, e em seguida, de forma desrespeitosa, acrescentou: “ou no colo do capeta”. Essa declaração, carregada de escárnio, provocou uma imediata e veemente reação.
Apoiadores do então candidato Lula, que estavam nas proximidades, rebateram as ofensas com gritos de mobilização e entoando o já conhecido lema “Marielle, presente”, que se tornou um símbolo da luta por justiça e memória. A troca de ofensas entre os grupos escalou, sublinhando a profunda divisão e a intolerância que muitas vezes caracterizam o cenário político brasileiro.
Vozes em defesa de Marielle: a repercussão familiar
A repercussão das ofensas foi imediata e dolorosa para a família de Marielle Franco. Luyara Franco, filha da vereadora, utilizou as redes sociais para publicar um vídeo em defesa da mãe, condenando veementemente o ocorrido. “Zombar do assassinato de Marielle Franco não é opinião. Não é debate. Não é liberdade de expressão. É violência política”, afirmou Luyara, ressaltando a gravidade do ato.
Ela enfatizou que “transformar o assassinato da minha mãe em motivo de deboche é desrespeitar sua história, sua família e a luta de tantas pessoas que seguem exigindo justiça”. Luyara fez questão de lembrar o legado de sua mãe: “Marielle foi uma mulher brilhante, cientista social formada pela PUC-Rio, pesquisadora, mestre em Administração Pública e uma parlamentar que dedicou sua vida à defesa dos direitos humanos. Uma mulher que pensava o Brasil com profundidade e trabalhava para transformá-lo”.
A irmã de Marielle, a deputada federal eleita Anielle Franco (PT), também se manifestou nas redes sociais, prestando apoio aos estudantes pró-Lula e reforçando a mensagem de resistência. “A minha irmã estudou na PUC-Rio e eu sou professora. A gente sabe o lado certo da história, que a gente está. A gente está aqui para dizer que a gente resiste”, declarou Anielle, conectando a memória de Marielle à luta contínua por direitos e justiça.
O legado e o crime que chocou o país
O assassinato de Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, em março de 2018, permanece como uma das páginas mais sombrias da história política recente do Brasil. O carro em que estavam foi alvejado após a vereadora sair de um evento no centro do Rio, em um ataque que rapidamente foi classificado como um crime de motivação política, dada a atuação incisiva de Marielle na defesa dos direitos humanos, especialmente das populações periféricas e negras, e sua crítica contundente à violência policial.
Após anos de investigação, os ex-policiais militares Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, confessos assassinos, foram condenados em 2024. O caso, no entanto, revelou uma complexa rede de envolvimento, levando à condenação de outras figuras proeminentes. Entre os condenados pelo crime estão Domingos Brazão, então conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro; Chiquinho Brazão, ex-deputado federal; Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro; Ronald de Paula, major da Polícia Militar; e Robson Calixto, ex-policial militar. A elucidação completa dos mandantes e a motivação final do crime continuam sendo uma demanda da sociedade e da família de Marielle.
Para mais informações sobre o caso Marielle Franco e outros desdobramentos, acesse a Agência Brasil.
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Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br