A morte da terapeuta Gabriela Moura, de 31 anos, após um procedimento de retirada de óvulos em uma clínica particular de reprodução humana na Zona Sul de São Paulo, desencadeou uma investigação policial e levantou sérias questões sobre a segurança de procedimentos médicos. O marido de Gabriela, Samuel Moura, de 35 anos, que também é médico, expressou profunda indignação, alegando “falta de atenção e assistência” durante o processo que culminou na tragédia.
O caso, que ocorreu em 17 de fevereiro de 2026, ganhou repercussão após a divulgação de imagens de câmeras de segurança que registraram os momentos de desespero e tensão do socorro à terapeuta. Gabriela, que sonhava em ter sua primeira gestação, sofreu uma parada cardiorrespiratória na Clínica Genics, em Indianópolis, e veio a óbito sete dias depois, em 24 de fevereiro, no Hospital Sírio-Libanês, em decorrência de lesão cerebral grave.
O drama de Gabriela Moura e a acusação do marido
As imagens obtidas pela reportagem mostram a sequência do resgate, desde o interior da clínica até a ambulância. Nelas, é possível ver Samuel Moura buscando respostas, sendo consolado por uma médica, enquanto socorristas levam sua esposa desacordada em uma maca. A Polícia Civil está analisando essas filmagens como parte crucial da investigação.
Samuel Moura, que acompanhava de perto o procedimento, aponta uma falha crítica na atuação do anestesista, Nestor Turner, de 72 anos. Segundo o marido, a demora em perceber a parada cardíaca da paciente foi determinante. Ele relatou à polícia ter “ouvido estimativas de aproximadamente 15 minutos” sobre o tempo em que Gabriela ficou sem oxigenação no cérebro. Esse período de anoxia cerebral causou danos irreversíveis, levando à “encefalopatia anóxica e hipertensão intracraniana”, conforme o prontuário médico do Sírio-Libanês.
O advogado da família, Yuri, reforça a suspeita de erro médico: “Não é razoável que uma jovem em plena saúde, em uma situação que não apresentava nenhuma comorbidade, entre em uma clínica para um procedimento simples e sai desta clínica sem vida”. A família de Gabriela enfatiza que ela era uma atleta, sem histórico de doenças, tendo participado de maratonas e corridas de rua.
Investigação policial e a busca por respostas
O 4º Distrito Policial (DP), na Consolação, é o responsável pela investigação, que está sendo tratada como morte suspeita. As autoridades buscam esclarecer se houve erro médico, uma reação adversa à anestesia ou se uma doença preexistente e não detectada pode ter contribuído para o desfecho trágico. A complexidade do caso exige uma análise minuciosa de todos os fatores envolvidos.
Um dos pontos de maior tensão é a demora na liberação do laudo necroscópico do Instituto Médico Legal (IML). Samuel Moura criticou publicamente o atraso, que pode levar até três meses. A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que o resultado do exame toxicológico, essencial para a conclusão do laudo, deve ser finalizado “nos próximos dias” e encaminhado à delegacia.
Este caso não é isolado. A morte de Gabriela ocorre aproximadamente dois meses antes do falecimento da juíza Mariana Francisco Ferreira, que também morreu após um procedimento similar em uma clínica em Mogi das Cruzes. O caso da juíza, ocorrido em 6 de maio, também está sob investigação como morte suspeita, levantando um alerta sobre a segurança desses procedimentos no estado de São Paulo.
Versões dos profissionais e da Clínica Genics
Em seus depoimentos à polícia, os profissionais envolvidos apresentaram suas versões dos fatos. O anestesista Nestor Turner declarou que a paciente teve dificuldade respiratória e que tentou ventilá-la durante todo o procedimento, seguindo os protocolos com uso de adrenalina, massagem cardíaca e intubação. Ele afirmou que os equipamentos estavam em pleno funcionamento e que os alarmes foram acionados diversas vezes, sem indicação inicial de parada cardíaca.
A médica ginecologista Aline Nogueira, responsável pela retirada dos óvulos, relatou que o procedimento transcorreu “dentro da normalidade, sem intercorrências aparentes”, com duração de cerca de 10 minutos. Ela foi chamada pelo anestesista e encontrou Gabriela com “coloração arroxeada” e sem pulso, momento em que as manobras de reanimação foram iniciadas.
A Clínica Genics, por sua vez, divulgou uma nota oficial. A instituição ressaltou que a Fertilização in Vitro (FIV) é um tratamento seguro, com uma taxa de mortalidade extremamente baixa, estimada em menos de 1 caso por 100 mil ciclos. A clínica, que atua há mais de 16 anos e possui todas as licenças e certificações, afirmou que a paciente Gabriela foi submetida a uma avaliação clínica individualizada e considerada apta para o procedimento, conforme a Resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) nº 2.320/2022. A Genics reiterou que todos os protocolos médicos e assistenciais foram adotados pelos profissionais envolvidos, agindo dentro das melhores práticas.
O Hospital Sírio-Libanês, por sua vez, limitou-se a informar que Gabriela foi transferida de outro serviço de saúde após uma intercorrência e que, em respeito à família e ao sigilo médico, não divulga informações clínicas sem autorização formal.
O legado de Gabriela e a dor da perda
Gabriela Moura era uma mulher vibrante, formada em direito, que utilizava suas redes sociais para compartilhar conteúdos sobre saúde, atividade física e qualidade de vida. Sua paixão por corrida a levou a participar de eventos como a Maratona do Rio de Janeiro (21 km) e a corrida de São Silvestre. Ela e Samuel iriam completar oito anos de casados e sonhavam em ter filhos, um sonho abruptamente interrompido.
Samuel Moura, em meio ao luto, ainda não conseguiu tirar a aliança de casamento, um símbolo da união e dos sonhos compartilhados. A família, em um gesto de solidariedade, decidiu doar os órgãos de Gabriela. Seu enterro ocorreu no Piauí, estado onde o casal se conheceu há 13 anos. A dor da perda e a busca por justiça marcam agora a vida de seus entes queridos, que esperam que a investigação traga as respostas necessárias para entender o que realmente aconteceu.
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